A nora de dona Angelina

Dona Angelina do Crucifixo Araújo era uma mulher de bom parecer, nascida e criada no campo – que chegara à cidade ainda em jovem para “servir” numa casa de gente abastada –, iletrada e manhosa (também hipocondríaca segundo os médicos), com setenta e dois anos de idade e cinquenta de casamento, tendo vivido martirizada durante a maior parte destes a aturar e a tentar compreender tanto o marido como o filho. Ambos eram uns “borrachões” inveterados e credenciados perante os grupos de seus habituais amigos de folguedo. Um, o primeiro, dedicado e fervoroso defensor das qualidades terapêuticas do vinho tinto, frequentava, depois do trabalho, as poucas tabernas que ainda sobreviviam na cidade, esquecendo-se da hora de regressar ao lar, principalmente quando jogava o Sporting. O outro, não desmerecendo a herança sanguínea, fazia questão de consumir tudo o que lhe perturbasse o cérebro desde a cerveja ao whisky passando pela aguardente velha portuguesa produzida nas destilarias mais distintas, e da qual tinha sempre à mão de semear uma garrafa de marca que ia consumindo, em assíduos pequenos tragos, enquanto sentado no sofá, delirante, nervoso e com pulos constantes, assistia aos jogos de futebol em que participava o seu Benfica. Não obstante tudo isto eles eram trabalhadores exemplares e mantinham, apesar da crise, uma pequena serralharia de construção civil onde faziam portas, portões, cancelas e gradeamentos em ferro forjado.

Por serem bons artífices naquela profissão os Araújos eram muito procurados e trabalho não lhes faltava. Devido a isto, dona Angelina não via falhar o dinheiro em casa sempre que necessitava de pagar as prestações dos investimentos que fazia em bordados da Madeira, em toalhas de linho de Viana do Castelo, em rendas de bilros de Peniche e também no ouro que adquiria, frequentemente, na ourivesaria da Evelina e ostentava quando, anafada e com as faces reluzente de pó-de-arroz, passava as tardes no café com as amigas, a lastimar-se do sofrimento em que vivia para suportar aquelas «esponjas» que tinha em casa.

Viviam numa cidade do litoral a cerca de quarenta e cinco quilómetros de Coimbra e o marido, saudosista e porque era daqui natural, fez questão de adquirir (no tempo em que não havia crise) um pequeno apartamento, o mais perto possível da área em que tinha nascido e vivera durante a infância e juventude. Com alguma frequência ia ali passar fins-de-semana, sozinho, para confraternizar com amigos que ainda ali residiam e que com ele tinham passado bons tempos durante o período da tropa. Embora dona Angelina não encarasse isto com bons olhos, tolerava, porém, pois era um tempo a menos em que tinha de aturar as borracheiras do marido.

Além disso, o apartamento ia servindo às mil maravilhas para o filho único de dona Angelina que, à socapa, o ia utilizando para consumar as suas aventuras amorosas, praticadas à revelia da sua ainda jovem mulher (que por conveniência não sabia de nada), com quem casara já entradote na idade. Do casamento derivara uma filha, agora uma moçoila com dezoito anos, com os Complementares mal acabados e pretensões de entrar na Universidade.

Adorando a neta, dona Angelina, porém, não suportava a nora, de quem nunca gostara desde o casamento com que não concordara sequer. Eram birras, segundo o marido, para as quais (absorvido na imaginação de novos e retorcidos desenhos que aplicava durante o dia nos gradeamentos de ferro forjado encomendados pelos seus clientes) não encontrava explicação e, pacientemente, as aturava ao mesmo tempo que suportava o tradicional mau humor da mulher.

Antes da abertura do Ano Lectivo num Instituto Superior (particular) em Coimbra, a moça tinha que prestar provas de exame para admissão ao primeiro ano. A existência do apartamento adquirido nesta cidade tranquilizava os avós quanto ao evitar uma substancial parte das despesas previstas na educação da neta. O problema que se colocou foi o de quem lhe iria fazer companhia durante o período da prestação de provas uma vez que não conheciam lá ninguém de confiança. Para dona Angelina a presença da mãe da pequena estava fora de questão. Não suportava a ideia de a nora colocar os pés naquela casa, pronto! E foi ela fazer companhia à neta.

Ao fim do primeiro dia, depois dos estudos da pequena e de terem ido jantar a um restaurante dos mais baratos, dona Angelina telefonou ao filho para saber como iam as coisas lá por casa. Ficou apavorada quando este lhe disse que o pai se tinha deitado às tantas na primeira noite em que ficara sozinho e ao entrar em casa, emborrachado de todo, esbarrara nos móveis e vitrinas que decoravam o corredor assoalho e os bibelots de Limoges tinham ido à vida.

Dona Angelina não hesitou e disse ao filho que nessa noite o pai já não podia ficar em casa sozinho e devia levá-lo imediatamente para dormir em Coimbra. O filho assim fez e nas viagens de ida e volta desperdiçou mais de duas horas o que o deixou preocupado não só pela quantidade de gasolina absorvida pelo Toyota (e ao preço que estava!), como pelas despesas previstas para ir buscar o pai na manhã do dia seguinte. Isto é, teria que ir e vir, duas vezes por dia, ou seja, tinha que fazer quatro viagens. Muito tempo perdido, muitos quilómetros para rolar e muito dinheiro despendido.

Durante a primeira semana este esquema funcionou com o filho da dona Angelina a ir, de madrugada, buscar o pai para cumprir o horário de trabalho na serralharia, onde fazia falta para a orientação e execução do trabalho e depois levá-lo de volta a Coimbra enfrentar o mau génio de dona Angelina. Quando regressava vinha, inevitavelmente, a pensar que lá teria de levantar-se outra vez mais cedo para efectuar nova viagem a Coimbra buscar o pai.

Quando dona Angelina, líder do quinteto familiar, compreendeu o esforço que o filho estava a suportar com tantas viagens, prodigalizou uma solução rapidamente aceite pelos intervenientes e que vinha, obviamente, reduzir aquele esforço. O melhor para ele era fazer, não quatro viagens por dia mas sim apenas duas. Ou seja: à tarde, depois do trabalho, levava o pai para este dormir em Coimbra. E para não ter de regressar sozinho a casa e voltar no dia seguinte, cedo, buscar o pai, o melhor era ficar também ele a dormir em Coimbra.

O novo esquema passou a funcionar até ao fim daquele mês em que a neta se preparou e prestou provas com vista à entrada no Instituto Superior. Guardada por aqueles três pingentes, embora contrariada, não teve outro remédio senão o de suportar tão esquisita solução.

Dona Angelina, há muito desabituada de confeccionar as refeições (deixava isso a cargo da nora) e não estando disposta a fazer ali o comer para aquela gente toda, decretou que fossem comer ao restaurante o que veio afinal alterar, profundamente, a previsão das despesas, aumentando-as substancialmente.

Com esta solução só adiaram por algum tempo o desejo da pequena que era o de se ver livre do pai e dos avós experimentando uma nova vida de estudante e Coimbra oferecia-lhe essa oportunidade. O convívio com gente nova era, naturalmente, desejado, mas a embirrenta daquela avó, cortava-lhe a esperança.

Em consenso familiar decidiram que, posteriormente, colegas e amigas da neta entretanto conseguidas e já escolhidas iriam fazer-lhe companhia transformando o apartamento numa pequena república de estudantes.

Porém a quinta personagem do quinteto familiar desta história acabou por ficar de fora do esquema idealizado, por capricho, para a vivência durante aquele período. Ainda jovem escultural e bonita mulher, a nora de dona Angelina do Crucifixo Araújo sentiu-se, naturalmente, mais uma vez, discriminada, experimentando a ausência do marido sem ter a quem se aconchegar durante aquelas noites em que se viu obrigada a dormir só e desamparada no leito conjugal.

Um conto de vez em quando
(Carlos Reys)